O movimento sempre será natural

Num mundo tecnológico, tudo é estudo, projeto, método, pesquisa, e tudo mais que possa comprovar a eficácia ou o prejuízo da sua contribuição ao universo infantil.

Inúmeras discussões, teses e investimentos nesse estudo vêm gerando um mar de teorias e divergências.

Vivemos num mundo que se “preocupa” e “investe” no mundo infantil. Mas, como não navegamos no mar da ingenuidade desde antes de Noé, sabemos que esse “interesse”, “preocupação” e tantos “investimentos” variam de pessoa pra pessoa, de empresa pra empresa, de estudo pra estudo…

Isso porque, hoje, a criança tornou-se, para muitos, o centro gravitacional da sociedade e das constelações familiares.

Entretanto, se recorrermos à história, poderemos ver que não era bem assim. A vida da criança não fazia parte da preocupação dos adultos. No século XVIII, por exemplo, pouco se falava sobre a criança  na literatura ou na pintura, geralmente eram  olhadas  como pequenos adultos.

De lá pra cá, muita coisa mudou… Como sempre em movimento, o mundo abraçou novas tendências sociais e a criança fez parte deste movimento.

Mas, o que eu posso ver da janelinha inquieta do meu olhar é que tanta tecnologia, tanta pesquisa, tanto interesse, tanto investimento, passa pelo filtro de pertinência infantil, e a criança, esse objeto de desejo que já foi, indiscriminadamente, subjugo na nossa história sempre se revela sábia.

Uma sabedoria que desobstrui conceitos, derruba teses, quebra paradigmas e nos revela, com uma assustadora tranquilidade, seus entendimentos sobre nossos esforços de mediá-la. Simplesmente resolve para nós a louca equação de tantos debates de saberes.

Ele une seu desejo infantil e mátrio de ser, com as possibilidades que o novo mundo lhe oferece e, numa resposta torta ao “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles, ela responde; Isto e aquilo!

E numa alquimia ingênua, espontânea, ela se dirige com maestria às suas escolhas e nos responde com uma sofisticada simplicidade:

– Sou infância em movimento, e, aos poucos, construo meus entendimentos sobre esse mundo que os adultos me apresentam, mas não abro mão de ser o que sou.

Na foto, a criança aparece manuseando a nova tecnologia para aquisição de lanche com senha, em equipamento digital, sem “apear” nenhum instante da sua infância imaginativa, que cavalga livremente, num corcel negro de cabo de vassoura.

 

Liris Letieres

P.S. Isso tudo eu pude ver no meu horário de plantão na chegada das crianças…

 

Líris - O movimento sempre será natural